Advento: o tempo dos desejos

Advento: o tempo dos desejos


No lugar do suspiro saudoso, ela punha a ânsia no há de vir. (Terra Sonâmbula – Mia Couto)

Introdução

Chegamos aos momentos do Advento. Um tempo em que os desejos acampam novamente as vivências comunitárias e reinventam os sonhos de quem celebra por meio da fé. Estamos no espaço da novidade, o começo de um novo ano litúrgico que nasce da ausência, da vontade de se encontrar com quem ainda não se faz presença, mas permanece na memória. É a fé cheia de desejos de um encontro, de um novo tempo: “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro e o leão novos e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará” (ls 11,6).
É sobre o Advento que escrevo neste texto que você tem em suas mãos. É uma escrita que procura refletir sobre: a) o tempo litúrgico e o ciclo do Natal; b) a origem das celebrações do Advento; c) como elas são desenvolvidas e, por fim, d) quais os significados para a nossa experiência comunitária e para a nossa práxis de fé. Para iniciar esta reflexão, conto um pouco da vida de Dona Virgínia, idosa contadora de estórias na Terra sonâmbula, romance escrito pelo moçambicano Mia Couto.

A metáfora que nos mostra um pouco desta senhora está em uma frase: “No lugar do suspiro saudoso, ela punha a ânsia no há-de vir”. Palavras da sabedoria popular que iluminam a compreensão que possuo sobre o Advento. Com Dona Virgínia, a saudade do marido que morreu não era um passado amarelado, mas um vir-a-ser. É a esperança de uma “vinda”, um reencontro. Saudoso futuro. É a falta que ainda aquece a lembrança. Um convite para o desejo: nos veremos, os olhos se encontrarão novamente, os corpos repousarão próximos, juntos. Carne, sangue. É a vontade que acampa o cotidiano e o faz novidade, sempre. Assim acontece com este tempo litúrgico, o momento dos desejos. Advento. Algo que amplio a seguir. 

 

O tempo litúrgico e o ciclo do Nata

A liturgia se desenvolve no tempo cotidiano, mas guiando-se por uma outra concepção de tempo: o litúrgico, que é carregado de significado. Para recordar terminologias do mundo teológico, é o chronos reinventado pelos encontros com o kairás. Ou com uma definição mais precisa de Julián López Martín: “O tempo litúrgico ou ‘tempo da celebração’ é a ritualização do tempo histórico-salvífico, isto é, a celebração dos acontecimentos nos quais se manifestou a salvação de Deus”‘. O tempo em que se guia a liturgia celebra-se, portanto, a salvação/libertação, encontrando-se com um Deus que não se firma como uma identidade, mas como “presença”, acontecimento. Quando imagino a liturgia, movo-me em uma viagem cotidiana guiada pela “ânsia no há-de-vir”. Promessa e esperança que trazem novas cores ao espaço vivencial, provocando um novo modo de viver. Uma andança que tem o fim como princípio. Não como algo eterno, simplesmente repetível. Mas a liturgia é um tempo em espiral, que acontece ressignificando, reinterpretando os mistérios de Cristo em recordação e esperança, em profecia e promessa.

Como acontece o tempo litúrgico? Desenvolve-se em tomo de dois ciclos: o ciclo da Páscoa e o ciclo do Natal. Pela delimitação deste texto, aponto apenas algumas anotações sobre o segundo momento. Este ciclo começa a ser celebrado e formado em lugares diferentes a partir do século IV, mas não de maneira uniforme. A sua realização aconteceu de maneiras distintas. Em uma vivência de fé em que a celebração principal era o mistério pascal, a festa do Natal consegue espaço. Talvez a sua propagação pelo ocidente e por muitas igrejas do oriente tenha acontecido em resposta às ideias arianas. Neste sentido, além do ciclo pascal, encontrou-se a necessidade de uma festividade que enfocasse em primeiro plano a pessoa de Jesus e não apenas a sua obra. Além disto, uma festa sobre o nascimento de Cristo confere prática litúrgica à fé apresentada no Concílio de Niceia (325), encontro que condenou Ario”. As festas litúrgicas têm, portanto, ligações históricas bem concretas. Não há como dissociá-Ias dos contextos que as geram. 

Como estrutura, o ciclo do Natal possui em suas festas: o Advento, momento de preparação para a vinda do Messias, algo que apresento no seguir deste texto; a Festa do Natal, o nascimento de Jesus e a Epifania, a manifestação de Deus. 

Como síntese, este ciclo faz memória do “acontecimento” de Deus e do seu reinado a partir da vida de Jesus de Nazaré. É um convite para revi ver e reinterpretar a encarnação. Não com uma compreensão metafisica, em que duas naturezas completas (humana-divina) convivem na pessoa de Jesus como algo indissociável. A partir do hino cristo lógico narrado na carta aos Filipenses (2,6-11), Jesus é humano, como um de nós, gente, portador do Vento de Deus e aberto ao Abba. Não é Deus que se humilhou e se tornou ser humano. Pois o filho de Maria não se autodivinizou, não se tornou centro da sua prática e vida. Mas colocou o seu viver numa práxis em prol do reinado de Deus, ação que o levou à cruz. Por meio da sua vida e humanidade, Deus atribuiu a ele um nome sobremodo importante: Kyrios, Senhor. 

Como conclusão, a encarnação é ponto de chegada. Um humano, que foi reconhecido por Deus, é Símbolo/Sacramento de Deus na terra. Um protesto contra o império a partir de uma criança.

 

A origem do Advento

Como a Páscoa, o Natal também recebeu um tempo de preparação. Se no outro ciclo tem-se a Quaresma, neste último, há o Advento. É sabido, embora não muito pesquisado, a importância da religiosidade popular e dos seus costumes para este período no ano litúrgico. Uma considerável contribuição. Como surgimento, as celebrações do Advento foram encontradas no século IV nas liturgias da Espanha e principalmente na Gália (atual território francês). Especificamente, as primeiras informações de algum momento de “quaresma natalina” foram notadas no Concílio de Zaragoza (380). São indícios anteriores aos encontrados nas liturgias realizadas em Roma. Nesta cidade, começa a aparecer um tempo de preparação para o Natal apenas no século VI, ligando-se às “têmporas de inverno,,3. Conforme Adolf Adam: “É fácil verificar que o conteúdo original do Advento não era tanto a expectativa da vinda de Cristo no final dos tempos (Parusia), quanto propriamente a Encarnação e a preparação para a sua celebração litúrgica'”. Porém, em sua construção histórica, em determinadas comunidades de fé como a Gália, o Advento ganha o tom mais escatológico, com a figura do Senhor que viria a julgar a humanidade. Neste intuito, portanto, o tempo de preparação para o Natal toma-se um
momento de espera e conversão diante da segunda vinda de Jesus.

Espaço de vigilância e transformação do modo de viver. Conforme alguns autores, como o próprio Adolf Adam, “esta secção escatológica não exclui a primeira vinda de Cristo; pelo contrário, os dois aspectos se entrelaçam'”. É a primeira vinda que sinaliza a vinda de Cristo do seu futuro. O Advento como tempo de espera para a celebração da encamação e tempo de entrega e mudança rumo ao encontro com o futuro de Deus. 

 

A liturgia do Advento 

Neste tempo de expectativa, a liturgia do Advento se desenvolve em quatro domingos, guiada pelo lecionário em seus anos A, B e C, com textos dos profetas, dos apóstolos e dos evangelhos. Todavia, em outros momentos da história, este período de preparação chegou a ser celebrado em seis domingos. Cada um deles carregado de profundo significado e de símbolos, articulando a esperança messiânica do antigo Israel e a esperança da futuridade do Cristo.

O primeiro domingo do Advento traz as marcas da espera vigilante e a prática das boas obras, com o desejo escatológico da segunda vinda de Cristo. A esperança e vigília, aqui, são atitudes centrais na vida cristã: “Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor” (Mt 24,42). O segundo domingo, por sua vez, aindapermanece com o tom escatológico, mas inclui as advertências e os avisos de João Batista, com o chamado à mudança de vida. A conversão toma-se neste domingo algo fundamental para a fé. “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Lc 3,4b).

Já o terceiro domingo, chamado de Gaudate, ganha as cores da alegria, da folia, com a presença dos tempos messiânicos e também com as palavras de João Batista. Mudam-se as cores de um lilás, utilizado no começo, para um rosa. É a “camavalização” do Advento: a festa como marca da prática de fé! “Deus está perto” (FI 4,4-5). Por fim, o quarto domingo evidencia os acontecimentos que precedem o nascimento de Jesus. É o tempo dos anúncios: a José, a Maria e a Isa-
bel. Mas, também, o tempo da gravidez de Maria, sinal da comunidade que anseia e lança-se em prol da vontade de Deus e do seu reinado.
Aqui, o desejo revela-se como marca importante da fé cristã. “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel” (Is 7,14b). 

Como símbolos da liturgia do Advento, foram-se constituindo: a própria ceia/eucaristia, como recordação da vida de Jesus e a opção de segui-lo, “em memória de mim”, atrelada com a esperança de transformação e chegada plena do reinado do Abba, “até que ele venha”; e a “palavra bíblica”, em seus textos e suas ressignificaçõesmostrando-se como potencial de experiências. Além destes, há ainda a própria “comunidade”, sinal da presença de Deus, casa de encontros e acolhidas, casa dos desejos: “Vem, Senhor Jesus” e a “coroa do Advento”, construída com ramos verdes e com quatro velas que vão sendo acesas no decorrer dos domingos, sinalizando a abertura à vinda do Senhor e à chegada da sua luz.

 

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Significados

Agora, chego à parte final desta reflexão. Neste momento, uma pergunta toma-se chave: Qual o significado do Advento? Qual a sua implicação para a prática de fé em nosso cotidiano? Elaboro, neste texto, uma possível resposta. Não como uma palavra que permanece fechada, mas como algo que continua aberto, como um convite para o estabelecimento de diálogos. Uma boa conversa.

O Advento é a morada do desejo. Neste tempo litúrgico, início de um novo ano, reside uma vontade negadora e, ao mesmo tempo, criadora. Negam-se as realidades produtoras de morte, e cria-se algo novo. A partir de um lugar vivencial, sonha-se: “Julgará com justiça os pobres” (Is 11 ,4a). Por quê? A ausência, aquilo que não é, aquilo que faz falta, aquilo que acampa apenas a saudosa memória ou a esperança … A partir da ausência, cria-se, muda-se o contexto em que se vive. A partir da morte (a ausência do viver), procura-se, por meio da reinvenção do que se tem, a vida. A partir do que se deseja, o que se espera, há a transgressão do presente. É a utopia (o que ainda não tem lugar) que traz outras cores aos lugares (topos) e realidades que provocaram o sonhar e a elaboração da vontade. 

Relacionado a isto, Jürgen Moltmann apontou: “Quem espera em Cristo não pode mais se contentar com a realidade dada, mas começa a sofrer devido a ela, começa a contradizê-Ia. Paz com Deus significa inimizade com o mundo, pois o aguilhão do futuro prometido arde implacavelmente na carne de todo presente não realizado. Se diante dos olhos tivéssemos só o que enxergamos, certamente nos satisfaríamos, por bem ou por mal, com as coisas presentes, tais como são. Mas o fato de não nos satisfazer, o fato de entre nós e as coisas da realidade não existir harmonia amigável é fruto de uma esperança inextinguível. Esta mantém o ser humano insatisfeito até o grande cumprimento de todas as promessas de Deus. Ligado à fala de Moltmann, a espera da vinda do Cristo em seu futuro acampa corpos que vivem num tempo e num espaço, corpos que celebram em comunidade. Nestes encontros, algo acontece. É como se o “há-de-vir” vivesse nas entranhas de quem se deixa interpelar e se transformar no Advento, por meio da esperança, do convite à conversão e à folia e da gravidez de desejos. Nasce neste confronto,
assim como o novo ano, um novo sujeito: “Eis que tudo se fez novo”. Um novo sujeito, com um outro modo de viver, transgressor da realidade dada, realidade que é marcada com: o extermínio da juventude, especialmente negra e pobre; a concentração de terras nas mãos de poucas pessoas; a pobreza estrutural; a homofobia; a intolerância religiosa e outras diversas formas de injustiças.

O Advento é convite para reinventar estas realidades por meio da esperança e do desejo, por meio de práticas que, possivelmente, alguns já realizam. Basta recordarmos as mobilizações populares em muitos países durante este ano de 2011, provocadas em sua maioria pelas juventudes: a primavera árabe, as revoltas estudantis no Chile, as insurreições populares na Inglaterra, a população organizada em Wall Street nos Estados Unidos, as greves que acontecem por todos os cantos do Brasil. Sinal de que os adventos cotidianos continuam a tomar outros corpos: vem, vem, vem … 

Por fim, aquela senhora que apresentei no início deste texto, Dona Virgínia – ao lembrar-se do seu esposo falecido -, dizia: “Quando eu for da idade de casar, este homem me vai chegar”. O seu amante não está na poeira, mas no novo. Ele ainda virá. O desejo reinventa outro tempo: uma experiência que movimenta a existência. Uma saudade-encontro no “fim” que traz a paixão para a estrada, para o cotidiano. As transformações que se sonham não estão num quadro ama relado. Estão na futuridade que ressignifica a memória e reinventa o presente. Certa estava nossa idosa, o esposo que um dia foi ainda será: há-de-vir. O desejo que um dia foi, será. É. Um sonho de uma nova realidade, de um outro tempo aqui. É o Advento: “Tu vens chegando pra brincar no meu quintal! Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais [ … ]”.


Daniel Souza / Trexo extraído do Livro Advento, Natal, Ano-Novo: tradições e lembranças, de Edmilson Schinelo e Isolde Dreher (Orgs.)

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