O Rosto da Misericórdia

O Rosto da Misericórdia


O papa Francisco convocou um Jubileu Extraordinário, a iniciar em 8 de dezembro de 2015, festa da Imaculada Conceição de Maria: o Jubileu da Misericórdia. Num pontificado marcado pela solicitude do papa com situações de extrema violência, como as guerras espalhadas pelo mundo, o martírio de cristãos, as complicadas migrações da África para a Europa, a escolha da Misericórdia para um Jubileu temático está na sequência de atitudes que revelam a necessidade de o mundo se voltar para as periferias existenciais e tomar atitudes que revelem a face bondosa de Deus em favor dos necessitados, que são todos os seres humanos, especialmente os mais sofredores (cf. n. 15). Será também oportunidade de celebrar festivamente os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, que abriu as portas da Igreja para o diálogo com o mundo moderno. Na sua bula, o papa lembra um pensamento do beato Paulo VI, papa que encerrou o Concílio, dizendo que “a religião de nosso Concílio foi, antes de mais, a caridade”. A caridade deve ser marca da Igreja atual, e a misericórdia é a ação da caridade: Deus nos ama e quer que amemos a nós mesmos, aos irmãos e ao planeta.

Para a convocação do Jubileu da Misericórdia, o papa escreveu uma Bula, a Misericordiae Vultus, O Rosto da Misericórdia. Esta carta, além de convocar o Jubileu, descreve a misericórdia de Deus, manifestada de modo maior em Jesus Cristo, verdadeiro rosto da misericórdia. Francisco diz que “em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia” (n. 8). Todas as palavras e gestos de Cristo são expressão do amor de Deus por cada um de seus filhos: um amor personalizado, que quer atingir cada pessoa de maneira única, alcançar suas necessidades, curar as feridas, restaurar a integridade. É um amor que brota da intimidade de Deus, de suas entranhas. Como uma mãe, e até mais que uma mãe, Deus não se esquece de nenhum de seus filhos e os espera como o pai que faz festa quando o vê retornar para casa (cf. Lc 15) (cf. n. 6).

A misericórdia de Deus não é abstrata, mas é sentida viva por cada um que se encontra com Jesus. O encontro pessoal com Cristo muda a vida da pessoa e a torna discípula. É como o encontro de Jesus com cada um dos discípulos: Jesus passa, olha especialmente para nós e nos chama. O papa lembra a escolha de seu lema: “Com misericórdia o escolheu”, um comentário de São Beda ao chamado de São Mateus. O olhar de Jesus atinge a todos, também o publicano e cobrador de impostos, e é capaz de transformar sua vida completamente.

O Jubileu da Misericórdia é oportunidade ímpar para rever as atitudes que não condizem com a vontade de Deus. De modo particular, o papa fala de retomar a importância do perdão, que vai rareando cada vez mais em nossa cultura. “Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão” (n. 10). Vivemos num mundo de competição e individualismo: o convite cristão é o da vida fraterna e da comunidade. Como anda o testemunho das comunidades de fé, que devem ser locais privilegiados de acolhida, sinal de Deus que acolhe a todos?

O ano jubilar terá como ícone a figura do bom pastor, que não cessa de procurar as ovelhas perdidas, enfaixá-las, curá-las (cf. Jo 10). Jesus é misericordioso como o Pai e convida seus seguidores a serem também misericordiosos. Esse será o lema do Jubileu da Misericórdia: Misericordiosos como o Pai (Lc 6,36). Deus é benevolente para com os justos e os pecadores. A salvação manifestada em Jesus é para todos os que a acolhem e se sentem atingidos pela misericórdia de Deus. Numa das bem-aventuranças do Sermão da Montanha (Mt 5), Jesus declara felizes os misericordiosos, e lhes promete que alcançarão misericórdia. Essa bem aventurança será também o lema da Jornada Mundial da Juventude de 2016, na Polônia.

Um dos símbolos fortes do Jubileu será a Porta Santa. Este é um símbolo dos anos santos. Jesus, no Evangelho de João, diz “Eu sou a porta”, pela qual as ovelhas podem entrar e sair com segurança. No ano jubilar da misericórdia, as igrejas principais de Roma, as catedrais e os santuários espalhadas pelo mundo abrirão uma porta da misericórdia, significando que a bondade de Deus está aberta de modo particular durante este ano. Será um tempo favorável para peregrinar até as catedrais e santuários, como sinal da caminhada do ser humano até Deus, bem como para buscar o sacramento da Reconciliação e a indulgência plenária (o perdão das culpas devidas pelos pecados, sinal de Deus que perdoa o ser humano por inteiro). O papa ainda pede gestos concretos, a realização das obras de misericórdia corporais e espirituais: 

               OBRAS CORPORAIS

Dar de comer a quem tem fome;

Dar de beber a quem te sede;

Vestir os nus;

Dar pousada aos peregrinos;

Ajudar os enfermos;

Visitar os presos;

Sepultar os mortos.

 

OBRAS ESPIRITUAIS

Dar bom conselho;

Ensinar os ignorantes;

Corrigir os que erram;

Consolar os aflitos;

Perdoar as injúrias;

Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;

Rogar a Deus pelos vivos e defuntos.

 

Aí está uma excelente proposta de ação para a catequese durante todo o ano de 2016. Ações práticas que permitirão fazer a experiência da Igreja “em saída”. A catequese, que deve unir fé e vida, poderá motivar catequizandos e famílias para gestos concretos de misericórdia, que marcarão tanto a vida daqueles que os realizam quanto a dos que recebem alguma ajuda.

“Que a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente” (n. 19).


Paulo Stippe Schmitt

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