Para uma Espiritualidade Bíblica

Para uma Espiritualidade Bíblica


A Revelação de Deus aos homens na história, visando à comunhão, aconteceu de modo progressivo, desde o projeto da criação, passando pela libertação de Israel e alcançando seu auge na vida de Jesus Cristo, Deus feito um de nós, especialmente no mistério pascal. É a partir dele que a Igreja surgiu e se organizou, continuando sua missão. Essa história da salvação chega até nós, como oferta da vida nova e plena realizada em Jesus.

Postos em forma de livro, pela inspiração de Deus, podemos encontrar os eixos principais da ação divina no mundo na Bíblia. Sabemos que a Palavra de Deus é “viva e eficaz” (Hb 4,12), dinâmica e atual. Quando a lemos não buscamos mero conhecimento histórico, mas mergulhamos no amor da Trindade que, fiel a si mesma, continua a agir no mundo, sustentando-o, recriando-o, libertando e salvando.

A Palavra de Deus está cheia do seu Espírito, que tanto inspirou os autores dos livros bíblicos como inspira, hoje, seus leitores, para que compreendam corretamente a mensagem aí escrita e a pratiquem em suas vidas. Portanto, é uma fonte riquíssima de espiritualidade, que precisa ser descoberta a cada dia e assimilada, como alimento de vida. Como os discípulos disseram a Jesus, reconhecemos também nele e em toda Sagrada Escritura as “palavras de vida eterna”.

A proposta que segue abaixo agrupa os livros bíblicos e orienta linhas de oração a partir dos seus conteúdos. Dessa maneira podemos nos dirigir a Deus, partindo da escuta de sua Palavra e trazendo-a para nossa vida.

Pentateuco: São os cinco primeiros livros da Bíblia. Falam-nos da criação do mundo e do ser humano; do chamado que Deus faz a Abraão, Moisés e tantos outros, para levá-los a uma vida mais plena, na Terra Prometida; a libertação do povo escravo no Egito marca a primeira Páscoa, com a passagem pelo Mar Vermelho; Deus vem em auxílio do seu povo e lhe dá os mandamentos, como forma de organizar a comunidade e promover a vida.

Olhamos para a natureza, obra de Deus Criador, e nos admiramos pela sua bondade, porque “viu que tudo era bom” (Gn 1). Como responsáveis pela criação, damo-nos conta de que Deus quer contar conosco no cuidado do mundo.

Reconhecemo-nos também chamados para uma missão e em busca da Terra Prometida, lançando-nos com fé nos caminhos de Deus. Diante das injustiças que nos rodeiam, fazemos de nossa oração um pedido a Deus para que nos liberte das escravidões atuais e nos comprometemos a observar os mandamentos. “As águas se dividiram e os israelitas entraram pelo meio do mar a pé enxuto” (Ex 14,21-22).

Livros Históricos: Vemos a história de Israel, seus momentos de celebração, de vitória, mas também de infidelidade. Em tudo isso, permanece Deus fiel à Aliança com Israel.

Olhamos para a nossa história, que também é história de salvação, marcada pela fidelidade e pela negação do projeto de Deus. “O Senhor é quem torna pobre ou rico, é ele quem humilha e exalta” (1Sm 2,7).

Livros Sapienciais: É o conjunto dos ensinamentos dos sábios de Israel. Falam da relação com Deus, de como agir em situações cotidianas.
Pelos Salmos, dirigimo-nos a Deus com as palavras inspiradas por ele mesmo e vemos nossos sentimentos nas situações do salmista. Com Salomão, pedimos a Sabedoria divina para conduzir nossa vida retamente. Ouvimos os conselhos dos Provérbios e procuramos pô-los em prática. “Se invocares a Sabedoria […] então compreenderás o temor do Senhor e alcançarás o conhecimento de Deus” (Pr 2,3.5).

Profetas: Diante da infidelidade dos governantes e do povo de Israel, Deus não cessa de falar por meio de enviados, os profetas. Eles anunciam o projeto de Deus e denunciam o que não está de acordo com ele. Quando acolhida, a palavra profética enche os corações de esperança e muda a vida dos ouvintes, levando-os ao caminho de Deus.

Como batizado, sou também participante da missão profética de Jesus e devo me empenhar no anúncio do Reino de Deus e na denúncia do que não está certo. Olhando para o chamado que Deus faz aos profetas bíblicos, olho para minha vida e percebo como Deus se manifesta nela. A partir da esperança profética, ergo os olhos e enxergo a realidade com os olhos de Deus. “Sim! Vou criar novo céu e nova terra!” (Jr 65,17).

Evangelhos: Entramos no Novo Testamento e vemos os mistérios da vida de Jesus: a Encarnação, sua vida em Nazaré, o chamado dos discípulos e a vida pública de Jesus, sua Páscoa. Estamos no ápice da Revelação divina aos seres humanos.

Olho para o nascimento de Cristo, sua humildade e pobreza: como eu as vivo em mim? Sou motivado pelas palavras e gestos de Jesus, tão coerentes entre si, e questiono aquilo que digo e faço. Agradecido, contemplo o mistério da Páscoa e, com o centurião, exclamo: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!” (Mc 15,39).

Atos dos Apóstolos: A comunidade se organiza, com a força da Páscoa de Jesus e a vinda do Espírito Santo. Mesmo entre perseguições, a Igreja cresce e testemunha a ressurreição de Jesus. O Evangelho vai se espalhando pelo mundo, a partir da missão confiada aos discípulos.

O que faço com os dons que recebi do Espírito Santo? Que atitudes minhas testemunham a transformação da Páscoa?
Vejo o retrato das primeiras comunidades e contrasto-o com minha vida de comunidade. Como os discípulos, sinto-me enviado àqueles que não conhecem Jesus, à missão. “[…] estávamos convencidos de que Deus acabava de nos chamar para anunciar-lhes a Boa Nova” (At 16,10).

Cartas Paulinas e outras cartas: À medida que o Evangelho se espalha, novas comunidades vão surgindo. É preciso alimentar sua fé e orientá-las em suas dúvidas. A solicitude dos apóstolos pelas Igrejas nascentes motiva-os a escreverem cartas, um modo de estarem mais próximos dos fiéis que receberam o anúncio de Jesus e se converteram. Cada carta possui conteúdos diferentes, conforme o tipo da comunidade.

Escolho uma carta e me debruço sobre ela. Compartilho as alegrias e as dificuldades desta comunidade? Com São Paulo, reconheço que é impossível anunciar Jesus sem a cruz. Com São Pedro, empenho-me em dar as razões da minha fé. Com São João, agradeço a Deus-Amor por me adotar como filho(a). “Todo o mundo sabe que sois uma Carta de Cristo, […] escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo” (2Cor 3,3).

Apocalipse: Como último livro da Bíblia, não tem a intenção de falar das coisas que acontecerão no fim dos tempos, mas quer dar forças à comunidade para que resista nos momentos de perseguição. Seu estilo é o de uma grande liturgia em torno do trono de Deus, quando todo o mal já não existe.

A partir das cartas às sete Igrejas, faço um exame de consciência sobre meu modo de seguir Jesus. Com os seres celestes, aproximo-me de Deus para adorá-lo. Contemplo a imagem da Igreja como noiva de Cristo. Com o autor sagrado, rezo: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,20).


 

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