Quaresma, itinerário rumo à Páscoa

Quaresma, itinerário rumo à Páscoa


Os quarenta dias da Quaresma existem em função da celebração do mistério do sofrimento, morte, sepultamento, ressurreição e glorificação de Jesus, isto é, o seu mistério pascal. É, portanto, um itinerário, um caminho, que leva a uma meta determinada. A Igreja, ao longo dos séculos, foi organizando este percurso litúrgico, espiritual e formativo e foi criando condições para bem percorrê-Io. Eis algumas dessas condições:

1. Revisão de vida e conversão

É uma análise da vida, diante da salvação trazida por Jesus e, também, de redirecionamento de vida para a coerência com o objetivo a alcançar, a Páscoa. Assemelha-se à operação do motorista quando faz a conversão do carro à direita ou à esquerda para acertar a direção que persegue; ou de alguém que, ao perceber o caminho errado, procura meios para encontrar o certo. E preciso analisar a situação e tomar as necessárias medidas. Para a Quaresma, a liturgia escolheu textos bíblicos especiais e estruturou celebra ções apropriadas. E desde os seus primórdios, a Igreja introduziu, como exercícios espirituais para este período, a oração, o jejum e a esmoIa. Mais tarde, a devoção da Via-Sacra e a devoção a Nossa Senhora das Dores e, mais recentemente, também a Campanha da Fraternidade, vieram favorecer a uma sintonia mais estreita com a caminhada de Jesus para a sua Páscoa;

Aqui, no Brasil, a sensibilização com o sofrimento de Jesus é associada à sensibilização e à ação concreta em relação aos mais necessitados, aos sofredores, aos excluídos.

2. Penitência

A penitência faz parte do processo de conversão. É a purificação dos erros, falhas e pecados, jogando tudo isso no fogo devorador do amor misericordioso do Pai, por meio do sincero pedido de perdão. Recorre-se – pede a Igreja  ao Sacramento da Reconciliação, Penitência ou Confissão. É um re-encontro com as águas purificadoras do batismo (cujas promessas renovamos na Vigília Pascal) e com o desejado encontro revigorante com o Cristo que padeceu, morreu e ressuscitou e está vivo no meio de nós. O perdão divino, porém, é alcançado, conforme a oração ensinada por Jesus, mediante o nosso perdão ao irmão que falhou conosco.

3. Mudança no modo de seguir Jesus

A Quaresma mantém alguns elementos da fase áurea da catequese, o catecumenato batismal dos séculos IV e V Durante a última Quaresma antes do batismo, as pessoas que o haviam solicitado, isto é, desejavam ser cristãs, faziam uma espécie de retiro – a quarentena – em preparação imediata para o mergulho purificador e iluminador no mistério pascal de Jesus. Vivia-se intensamente a oração, o jejum, a esmola e a penitência de conversão. Havia encontros e  celebrações densas em ritos, leituras, ensinaprática da caridade libertadora: a luta contra a mentira, a corrupção e injustiça, a péssima distribuição de renda, o desemprego, a exploração do outro, a depredação da natureza e, principalmente, a situação de exclusão social de tanta gente.

Tudo isso é apenas coerência com Jesus que viveu em função da libertação dos pecados, sim, mas também da eliminação de suas manifestações e conseqüências bem visíveis, pessoais, comunitárias e sociais. Ele curava os pobres, partilhava o pão, aconselhava os aflitos e ia contra os abusos dos chefes religiosos e civis.

Procuremos, nesta Quaresma, viver profundamente estes três aspectos ou condições, para um sincero e verdadeiro desenvolvimento espiritual.


Ir. Nery, FSC

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