Reis Magos

Reis Magos


 

O “sonho” como instrumento de revelação divina aparece várias vezes no Antigo e também no Novo Testamento. Aqui, os magos são “avisados em sonho para não voltarem a Herodes”, e reconhecem no sonho uma orientação divina. Assim é que “retornam para sua terra”, no Oriente, mas sem voltarem à corte de Herodes, pois perceberam que as intenções do rei, como será comprovado depois (cf Mt 2,16-18), eram perversas. Retornam, então, “por outro caminho”. Simbolicamente, talvez o evangelista nos queira sugerir, a cada um de nós também, uma “mudança de rota” em nossa vida, uma vez encontrado o Menino. Estamos dispostos, nós, que vamos celebrar mais uma vez o Natal, “guiados pela estrela”, estamos decididos a seguir, neste Ano da Fé, “por outro caminho”? E, avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, passando por outro caminho.

 

POR OUTRO CAMINHO

Aparentemente, aquele menino era como os outros. Mas a luz da fé fez os magos nele reconhecerem o Messias divino esperado. Ou melhor, invertendo o ponto de vista, o Messias divino se manifestou a eles, concedendo a esses pagãos de boa vontade a graça da sua “Epifania”, palavra grega que, significando “manifestação”, foi mantida na liturgia de 6 de janeiro. Cumpria-se assim uma série de profecias do Antigo Testamento, que anunciavam o tributo das nações ao Rei esperado (cf Sl 72,10-15). Veja-se também o anúncio de Gn 49,10: “Não se afastará de Judá o cetro… sem que os povos lhe prestem homenagem”. Quanto aos “presentes”, por serem “reais” e de três tipos, deram origem ao número dos “três reis”. A interpretação tradicional vê no ouro o simbolismo da realeza; no incenso, o símbolo da divindade; e na mirra, o símbolo do sofrimento. Isso, porque o Menino adorado é Rei, é Deus, e é Redentor.Ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois, abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso, e mirra.

 

OURO, INCENSO, MIRRA

Segundo Mateus, os  magos entram numa “casa”: não é mais, pois, a gruta ou estrebaria do nascimento, como lemos em Lucas. Estranhamente, Mateus, que relata o anúncio a José (Mt 1,18-25) e, depois, o seu papel fundamental na fuga para o Egito (Mt 2,13-15), aqui ignora a sua presença “na casa”. É que, na tradição bíblica, a mãe do rei ou do herdeiro tem papel preponderante, como se vê no Sl 45,10. Além disso, a profecia de Miqueias só fala da mãe: “até que a Mãe dê à luz” (Mq 5,2).Quando entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe.

 

O MENINO COM MARIA, SUA MÃE

Tendo deixado o brilho do palácio e o ruído da cidade, os magos reencontram, no céu, a estrela-guia, que os conduz “até o lugar onde estava o Menino”. O evangelista não nos dá, evidentemente, informações científicas sobre o percurso da estrela. O que ele sabe, é que os navegantes no mar, e os caravaneiros no deserto, observavam a rota dos astros. E é isso que ele relata a respeito desses caravaneiros especiais, os quais, aliás, sentem agora, ao reverem a estrela, “uma alegria muito grande”. Era a alegria da luz da fé, reencontrada. Como os magos, portanto, deixemo-nos guiar por essa luz.Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela que tinham visto no Oriente ia à frente deles, até parar sobre o lugar onde estava o Menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande.

A ESTRELA IA À FRENTE

É tão belo “procurar o Menino”. Ainda mais neste tempo de Natal, em que o comércio, cada vez mais voraz, mais consumista, o esconde no meio de tantos produtos supérfluos, que enchem a sacola do Papai Noel e as vitrinas das lojas! Isto, enquanto o aniversariante é Ele, o Menino pobre, e não o “Bom Velhinho”… Nesse sentido, Herodes teria feito bem, em “mandar procurar o Menino”. Melhor ainda o faria, se ele próprio se dispusesse a deixar o palácio e se pusesse, ele mesmo, a procurá-lo. Infelizmente, a intenção que o movia era má, perversa, mentirosa: era para desfazer-se dele, para eliminá-lo, como a um concorrente a menos.Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles a data exata em que a estrela tinha aparecido. Depois, enviou-os a Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações sobre o Menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo.”IDE E PROCURAI O MENINO
Os sacerdotes e escribas, conhecedores da letra da Bíblia, não hesitam em citar Miqueias, como o profeta que dava a informação pedida por Herodes. Só que a indicação do profeta era relativamente surpreendente, pelo fato de Belém, na época, ser um lugarejo, “menor entre os principais”… No entanto, como na pequena Belém havia nascido Davi, é ainda “na pequena Belém” que devia nascer o novo rei Davi, o Messias, e não na corte real, na grande Jerusalém.  É, mais uma vez, a predileção divina pelos pequenos.Eles responderam: Em Belém da Judeia, pois assim escreveu o profeta: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um príncipe que será o pastor de Israel, o meu povo” (Mq 5,1).

A PEQUENA BELÉM

É estranho esse “alarme” de Herodes, e “de toda a cidade de Jerusalém”, quando, segundo o profeta Isaías, a chegada da luz do Messias deveria encher de júbilo Jerusalém e o seu povo (cf  Is 60,1-2). Por que, em vez da alegria, o “alarme”? Simplesmente por causa da ambição de Herodes, que vivia obcecado pelo medo de ter de ceder o trono a um “concorrente”. No entanto, esse suposto “concorrente” vinha “para servir”, não para destronar ninguém. Apesar de tudo, Herodes procede a uma investigação dos livros proféticos, para averiguar “onde” o novo Rei devia nascer.Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém. Ele reuniu todos os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo, para perguntar-lhes onde o Cristo devia nascer.

O ALARME DE HERODES

Observamos acima que os primeiros a saberem do nascimento de Jesus, segundo Lucas, foram os pastores, “pobres e iletrados”, que recebem esse anúncio claramente, de viva voz, por parte dos anjos. Os magos, provavelmente “ricos e instruídos”, mesmo não sendo excluídos do anúncio, recebem-no depois, indiretamente, através de um sinal astronômico. Era uma estrela singular, que eles, na sua sabedoria de eruditos, mesmo sendo pagãos, “do Oriente”, identificam com a “estrela de Jacó”,  mencionada no oráculo de Balaão, no livro dos Números: uma estrela sai de Jacó, um cetro se levanta de Israel (Nm 24,17). Sem entrarmos nas discussões científicas em relação a essa “estrela”, o fato é que, segundo Mateus, é ela que desperta a atenção dos magos – misto de astrônomos e astrólogos – e que os leva a pôr-se a caminho, em busca do Rei anunciado. Belo símbolo da luz da Fé, que nos guia no peregrinar da vida, como o exprime um dos nossos cantos natalinos: Guiados pela estrela / da nossa Fé ardente, / iremos ao altar, / ver Cristo que nasceu

NÓS VIMOS A SUA ESTRELA

Assim, o evangelista Mateus começa o seu relato sobre o nascimento de Jesus, de certo modo complementando e supondo aquilo que nos refere São Lucas. De fato, Mateus nada fala da ordem do recenseamento, nem da viagem de Maria e José a Belém, da dificuldade de encontrar um lugar para a hospedagem, nem do nascimento do Menino numa estrebaria – pois ele é logo reclinado numa “manjedoura”, que era o cocho da ração dos animais (cf Lc 2,1-7)… Por outro lado, Mateus também nada refere sobre os pastores, pobres e iletrados, que, segundo Lucas,  são os primeiros a receberem a notícia alegre do nascimento, os primeiros que ouviram o cântico dos anjos louvando a Deus e anunciando a paz à humanidade, e os primeiros também que encontraram o Menino deitado numa manjedoura (cf Lc 2,8-20). E a estrela? E os “reis”? E Herodes? São elementos que não se encontram em Lucas, são próprios da narrativa de Mateus, e sobre eles queremos agora refletir.Depois que Jesus nasceu na cidade de Belém da Judeia, na época do rei Herodes, alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo!”Mt 2,1-12EM BUSCA DO REI QUE NASCEU.


Pe. Ney Brasil Pereira

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